No dia 5 de setembro será comemorado o dia nacional da Amazônia. A data remonta a 1850, quando o imperador Dom Pedro II decretou a criação da província do Amazonas, hoje um Estado e dos mais emblemáticos do país. Neste ano, o aniversário se reveste de luto diante de uma série de circunstâncias que tornaram a sobrevivência desse santuário nacional, orgulho do mundo, um dia de tragédia.

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O Brasil está de luto pela destruição da Amazônia que cresce a cada dia graças a “uma mistura de ignorância com interesses truculentos”, como acaba de denunciar neste jornal a ambientalista brasileira de fama internacional Marina Silva, que chegou a qualificar de “novo Holocausto”, de “tragédia das tragédias” a destruição que sofre a maior reserva ecológica do planeta.

E a ecologista, nascida na floresta amazônica, não ficou na retórica. Denunciou que o Governo Bolsonaro “está inaugurando um tempo de delinquência livre, em que se pode agredir a natureza e as comunidades sem receio de punição”. Denúncias que começam a chover sobre um Governo e um presidente que não apenas autoriza a destruição da Amazônia como também zomba grosseiramente da questão ambiental, como quando disse a um jornalista que a melhor maneira de defender a natureza é “comer pouco e defecar apenas a cada dois dias”.

Denúncias que já ressoam na imprensa mundial. A última acaba de ser feita pelo semanário L’Espresso, da Itália, que acusa o presidente Bolsonaro de “desmontar direitos, devastar o meio ambiente e perseguir os indígenas”. O presidente da França, Macron, quer chamar atenção para a questão e a ONU está disposta a intervir.

O gemido da floresta amazônica que se vê não só queimada, mas ridicularizada e desprezada pelo poder e que não é uma riqueza apenas do Brasil, mas pertence ao mundo, foi a causa da simpatia que está despertando internacionalmente a foto do desconhecido sargento do Corpo de Bombeiros Pedro Rivas Alves, dando de beber a um tatu perdido e sedento no meio da floresta ainda fumegante do último incêndio no estado do Mato Grosso. Um gesto que está sendo interpretado como uma metáfora da dor que está causando no mundo a destruição dolosa de uma floresta que mantém 20% da água potável do planeta e a maior diversidade de fauna e flora com 5,5 milhões de quilômetros quadrados e sete milhões de quilômetros de rios.

A imagem desse bombeiro agachado, que oferece água de seu cantil ao tatu perdido nos escombros do fogo, está emocionando crianças de várias partes do mundo que pedem para escrever-lhe e agradecer-lhe pelo gesto. São sempre as crianças que melhor sentem em seu pequeno coração a força de uma metáfora quando desperta nelas sentimentos de compaixão. A compaixão é vista não apenas como a dor do outro, mas como uma transferência com a qual nos identificamos com a dor alheia como se fosse nossa. As crianças estão fazendo delas a sede daquele pequeno tatu perdido e sedento no meio daquela floresta que era dele e hoje é em parte um cemitério que, na expressão do biólogo Izar Aximoff, “cheira a carne queimada de animais e oferece um silêncio da morte”.

A sensibilidade das crianças diante da dor e o amor no qual não distinguem entre pessoas e animais me fez pensar que nada seria melhor para comemorar o 5 de setembro, dia nacional da Amazônia, do que criar nas famílias e nas escolas um movimento infantil e juvenil de solidariedade com a floresta ameaçada. Em vez de sair para protestar na rua, as crianças poderiam escrever uma carta em defesa da Amazônia acompanhada de um desenho e enviá-la ao presidente Bolsonaro, que seria coberto por esses milhões de mensagens inocentes que lhe pedem que pare com essa tragédia natural.

Ninguém melhor do que os professores, que pelo que eu saiba são, em sua grande maioria, sensíveis à defesa do meio ambiente, para incutir nas crianças o amor pelas maravilhas da natureza e infundir-lhes o senso de responsabilidade que pesa sobre eles. Esses professores que são tantas vezes heróis silenciosos poderiam inspirar e recolher esses milhões de cartas, escritas pelas crianças no papel para que nelas permanecessem as marcas de suas mãos inocentes. Cartas e desenhos tão numerosos que seriam capazes de incutir medo e fazer refletir a consciência que hoje parece endurecida com o drama da Amazônia, do novo presidente brasileiro.

As crianças deste país devem estar conscientes de que se a Amazônia pertence a todos ela o é de um modo especial delas, que a herdarão e que, a partir de agora, devem sentir o dever de preservá-la para que amanhã possam desfrutar dela com seus filhos. São as crianças, inclusive mais do que os adultos, que têm mais direito de denunciar os abusos que estão sendo cometidos com a Amazônia que lhes ajuda a crescer e respirar.

Seria triste e vergonhoso ver, como em parte já está acontecendo, as crianças e adultos estrangeiros mais motivados com o crime que está sendo cometido com a Amazônia do que as crianças e adultos deste país. Sei que meu desejo de que Bolsonaro seja coberto por milhões de cartas das crianças brasileiras às quais poderiam se juntar as de outros países é apenas um sonho.

Juro, no entanto, que seria a notícia que eu mais gostaria de dar e comentar nos 20 anos que escrevo, com amor e dor, do Brasil e de suas incríveis riquezas naturais e espirituais. Riquezas que sempre foram invejadas por muitos outros povos do planeta e que hoje estão ameaçadas por um poder autoritário, insensível e violento que, mais do que na força do que cria vida, prefere acreditar nas armas que só sabem matar.

Fonte: EL PAÍS – Edição do Brasil